sexta-feira, 1 de outubro de 2010

De forma que me ache

Procuro por alguma coisa que me faça brilhar os olhos, coçar a cabeça, gestuar com as mãos, ou não ter onde colocá-las. Andar pra lá e pra cá, rodar, pensar e pensar, andar mais um pouco sem ter onde ir até encontrar aquele lugar que procuro. Um beijo no escuro, no claro também. Alguma coisa entre meus horários e brechas do dia. Uma natureza ainda à luz do dia. Procuro por tudo que ainda não achei, novidades, pausas, olhares incompletos, frases tentadas, porém não completadas. Falar mais alto da próxima vez, pois se não compreendido, não terá outra vez. Meu amigo, olha aqui! Procuro sim onde ir, procuro então suas mãos, o apego, o afeto, o chamego, o desafeto pós término, o afastamento de Brecht, suas mãos em minhas pernas, procuro o cheque devolvido. Sem fundo. Olho no olho, e no fundo no fundo não me vejo. Procuro tudo. Algo que me enlouqueça, que perca a cabeça, que funde meu cheiro no seu travesseiro, procuro um amigo, uma igreja, pra ir rezar a missa de meio-dia, das seis, do padre torto, às quartas-feiras depois de um dia, um dia tranquilo com várias leituras e várias cervejas em baixo da mesa pra não contar as que sumiram no bar, de esquina, se ligua na minha, já é quinta e amanhã é sexta e depois o finde, fim de semana, que pode ser que eu ache a minha sunga pra ir pra praia, e quem sabe, alguma sereia me cante e me leve pra trás das pedras do arpoador, sem nem um, nem dois, nem um, pudor, ou até mesmo ali na Praia do Diabo, em pleno sábado, já de madrugada, quem sabe eu acho um poema jogado, esquecido, triturado, abandonado, não decorado no fundo da minha cabeça. Procuro a chave de casa, o livro no sebo, um quarto nos classificados. Eu procuro algo improvisado, que possa ser falado, sentido, ouvido, cantado, emprestado de forma que me ache.

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